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A Bíblia é inspirada?

Responder a essa pergunta não é fácil como parece, pois precisamos recorrer ao processo histórico e de compilação do qual ela se encerra e daí darmos uma informação um pouco sólida acerca da sua inspiração. Os cristãos com excepção de islâmicos, judeus, ateus, alguns filósofos e historiadores olham-na como cheio de erros, incongruências, anacronismos históricos, uma colecção de lendas e ainda vão mais longe que não passa de meras histórias de ninar comparáveis as crónicas de Nárnia. No entanto, um grande número de apologistas cristãos de vários segmentos, apesar de divergências substanciais em seus credos, acreditam que ela é inerrante, infalível e guia moral absoluta de suas vidas. Certos ateus não ignoram a sua influência cultural, epistemológica e política no Ocidente e no mundo todo. 

A Bíblia é um bestseller transoceânico e cobre todas as regiões do mundo. Na África, nas regiões paupérrimas, é frequente as pessoas não terem livros técnicos, mas não lhes faltar a Bíblia e está traduzida em quase todas línguas minoritárias e/ou línguas Bantu. O sucesso da Bíblia na África deve-se primeiro a distribuição gratuita ou aos preços irrisórios/acessíveis, a campanha evangelística cada vez mais crescente e a fé de que se trata de um conjunto de boas novas vindas de um Pai Celestial que se importa com a miséria e a vida de milhões de africanos que vivem na penúria e, por último, deve-se ao facto da panóplia cultural africana ser penetrável por superstições, crenças em forças místicas e o pouco entendimento das causas de fenómenos. 

E, por conseguinte, as próprias afirmações dela é um acicate poderoso de propaganda e marketing na sua aceitação como um livro inquestionável e infalivelmente divino tal qual nestas passagens: “ Toda a Escritura, divinamente inspirada, é proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça” (2 Timóteo 3:16, Versão João Ferreira de Almeida) e foi escrita por homens por inspiração divina (veja 2 Pedro 1:21). E, consequentemente, a maneira como esses homens escreveram e conservaram testemunha a infalibilidade de que se deduz de deus omnisciente e omnipotente?

Ainda que essa pergunta pareça-nos óbvia é importante dizer que não existem, primeiro, fundamentos divinos e de inspiração da divisão da Bíblia em oito secções a saber: no Antigo Testamento encontramos pentateuco, poesia, história, profetas e no Novo Testamento os evangelhos, história, epístolas e profecia. O processo divisório da Bíblia por tópicos teve origem no século III a.C., na Versão dos Septuaginta e como se pode notar deus deixou a mercê das vontades dos homens a deformação, transfiguração da estrutura de sua mensagem principal à humanidade. Engana-se igualmente quem pensa que os manuscritos que hoje fazem parte da Bíblia estavam divididos em capítulos e versículos, pois isso só foi possível nos meados do século XX.



E segue a divisão do Novo Testamento:



A palavra inspiração em toda extensão teológica e bíblica pressupõe o sopro de Deus as ideias do Homem e todo processo sob o ponto de vista de conteúdo o que por esta razão, devido aos atributos de tal divindade, significa que não pode existir margem para o erro e o processo de preservação deve ser de alta qualidade, mas isso não se deu o que coloca em checkmate esta prerrogativa da Bíblia ser produto de uma força sobrenatural. 

A palavra de Deus original não existe mais, as placas de Moisés não existem mais e só existem cópias dos autógrafos. Não obstante, o leitor poderá dizer que os escritos de Platão originais não existem mais, mas temos cópias o que não nos faz descartar e temos ao nosso dispor as críticas textuais e ou filológicas. De igual modo, a Bíblia não dispõe de originais e deve gozar da mesma posição quanto mais com a inspiração divina. Veremos a seguir que este argumento não procede devido às condições de composição, preservação, o tempo, o clima e os escribas que a seu bel-prazer poderiam acrescentar uma ideia para apoiar as suas doutrinas, lendificar e glorificar os feitos de sua nação que até então não passava de insignificância.

Antes de ser Bíblia, um conjunto de livros, escolhido no futuro, num determinado concílio, a transmissão era mais primitiva e oral. A tradição oral era comum naquele tempo e os povos do Antigo Oriente Próximo narravam as suas histórias de palavra falada a palavra falada às gerações posteriores. De acordo com Miller e Huber apud Won (2020, p.):

No princípio, não havia a palavra escrita. Havia somente uma palavra falada, e, conforme registrado posteriormente no livro de Gênesis, Deus criou o universo falando palavra no vazio. Os primeiros adoradores de Deus não podiam escrever os pensamentos sobre Deus ou as suas experiências com ele, mas podiam falar a respeito dele e, isso, eles fizeram. Muito antes de terem inventado o seu próprio sistema linguístico, e mesmo depois de sua invenção, os hebreus contavam e recontavam suas histórias, muitas das quais foram posteriormente registradas na Bíblia. (WON, 2020:26).

Daí que nós perguntamos quão segura é a transmissão oral?

Com a invenção da escrita pelos sumérios em 3500 a.C., posteriormente a escrita hieroglífica e nesse ínterim possivelmente se escreveu os primeiros manuscritos da Bíblia sobre uma matéria de fácil deterioração papiro e posteriormente usou-se os pergaminhos. A partir do século IV ou V teve-se o Codex sinaiticus a primeira Bíblia completa com os dois Testamentos. Quantos papiros e pergaminhos se deterioram para chegar ao sinaítico? Muitos e implica cópias contínuas e até o codex sinaitucus é uma cópia. Impressionante, não é?! Querendo fugir isso o nosso querido Geisler sai pela tangente:

A inspiração e a conseqüente autoridade da Bíblia não se estendem automaticamente a todas as cópias e traduções da Bíblia. Só os manuscritos originais, conhecidos por autógrafos, foram inspirados por Deus. Os erros e as mudanças efetuados nas cópias e nas traduções não podem ser atribuídos à inspiração original […] As cópias e as traduções da Bíblia, encontradas no século XX, não detêm a inspiração original, mas contêm uma inspiração derivada, uma vez que são cópias fiéis dos autógrafos. (Ibidem, 1997:14). – o sublinhado é nosso.

Nisso nós perguntamos: as cópias existentes no século IV e V a.C.com excepção de Sinaticus, caso existam em grande número, não são derivadas uma vez que não fazem parte dos autógrafos ou originais dos autores de tais livros? Isso corrobora e enfraquece a ideia de inerrância da Bíblia. 

Os autores Israel Finkelstein e Neil Asher Silberman argumentam que a saga do Pentateuco foi moldada, desenvolvida e ornamentada por revisores anónimos ao longo dos séculos. Não obstante, a problemática dos papiros que sobreviveram sofreram quase os mesmíssimos problemas de autenticidade, fraseologia e obscuridade de sua origem. (FINKELSTEIN & SILBERMAN, 2003; ANGLADA, 2014).

Vejamos aqui uma citação directa: “Em outras palavras, os estudiosos gradualmente chegaram à conclusão de que os primeiros cinco livros da Bíblia, tal como agora são conhecidos, eram resultados de um complexo processo editorial […].” (Idem, 2003:26) Querendo com isto dizer que a composição do Pentateuco não comporta única pena de escrita, mas é a consequência de fontes diversificadas em diferentes circunstâncias e lugares diferentes com diversos interesses políticos e religiosos.

Werner Keller, contudo, em seu livro E a Bíblia tinha razão admite que as escavações arqueológicas comprovaram a existência de Ur, a cidade de Abraão, e sugere que os patriarcas realmente existiram. É interessante saber que, a priori, é provável que patriarcas históricos nunca sequer tenham existido e o êxodo tenha sido apenas imaginação criativa de posteriores mãos hábeis.

A que conclusão chegamos? A Bíblia antes de propalada ideia de perfectibilidade é errónea, lendária e o produto de retalhos fantasiosos sobre acontecimentos, personalidades fictícias impregnadas na consciência colectiva histórico e culturalmente localizada. 

Bibliografia

ANGLADA, Paulo. Manuscritologia do Novo Testamento: História, Correntes Textuais e o Final do Evangelho de Marcos. Ananindeua: Knox Publicações, 2014.

FINKELSTEIN, Israel & SILBERMAN, Asher, Neil. A Bíblia não tinha razão. Trad. Tuca Magalhães.  A Girafa Editora, São Paulo: 2003.

GEISLER, L., Norman et NIX, E., William. Introdução Bíblica: Como a Bíblia chegou até nós. Trad. Oswaldo Ramos. Editora Vida, São Paulo: Brasil, 1997.

WON, Paulo. Deus falou na língua dos homens: uma introdução à bíblia. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2020.


(Contribuído por Nanwara)





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